Os deuses
dançam no vazio primordial. Isto é um chamado. Eles cantam o mundo com suas
vozes: a deusa, que é a terra, contempla seu amado; ela que é a Deusa das
Estrelas — ela que é Erin, aquela que pinta o passado, que religa os distantes;
ela que é Astéria, senhora terrifica dos lumiares do céu, ela que é Nut, mãe
dos deuses — contempla o seu amado.
Ele que é o
deus azul, que cheira a canela e almíscar, o primeiro reflexo da deusa, o eternamente
jovem, ele que é a sexualidade que não conhece padrão, antes da invenção da
distinção entre os gêneros. Ele que é o primeiro, o primogênito, aquele para
quem o amor nasceu primeiro, contempla sua amada.
Seu
contemplar apaixonado enche-se de desejo e no vazio da escuridão as chamas
azuis do Deus celeste unem-se ao vermelho vivo das chamas a deusa. Eles copulam
em meio às estrelas que nascem, e a partir deles surge à vida.
Do encontro
dos deuses nascem os espíritos dos homens, cheio do vermelho feminino da deusa
que é a Terra e pleno da luz azulada do deus que é o Céu; essas cores produzem
homens e mulheres que desejam ardentemente um ao outro e que se completam.
No entanto, o
negro coração inocente dos homens, corrompe-se facilmente. Eles — afastados da
essência que os criou — voltam seus olhos contra o terceiro irmão, aqueles cuja
chama brilha violácea.
E os
participantes da púrpura chama são diversos: eles são as mulheres que amam
outras mulheres, e que se sentem unidas em comunidade; eles são as mulheres que
amam homens, mas que abraçaram a si mesmas fora dos estereótipos; eles são
todos aqueles que amam sem distinção; eles são os homens que amam outros
homens, que riem alto em alegria. Eles são também os heteros que abraçaram a
diversidade como parte de sua comunidade.
Há diversas
expressões da chama violácea, homens e mulheres trans que buscam em suas almas
transcender os corpos com os quais vieram, os gays afeminados e os não
afeminados que vivem dentro de uma comunidade. Há muitas expressões dessa
sagrada chama, unidos todos por terem vindo a Terra munidos de espíritos
livres, porém incompreendidos.
Viados foram
chamados, todos, sem distinção. Viados somos, os gamos de sete cifres que
brilham sob a luz púrpura que é o amor da deusa e do deus. O Veado de Sete
chifres de uma chama que foi chamada de Viada, Transviada, Queer, aquele que
nos protege; o unicórnio, o lobo das estepes.
Este é um
chamado, uma canção que a deusa canta; uma chama que nos protege, mas que
devamos fortalecer com nossa força. Em grupo olhemos para nossa Mãe e nosso Pai
e honremos nossos Ancestrais da Chama com incenso. Aqueles que morreram para
que fossemos livres: o vendedor pisoteado no metrô, a guerreira queimada viva e
depois condecorada santa, o criador dos computadores e também Lili Elbe, cuja
coragem não tenho palavras para descrever.
Honremos nossos ancestrais assassinados,
aqueles que morreram de frio expulsos de casa, aqueles que se mataram; aqueles
de Stonewall. Os esquecidos, os lembrados. Honremos todos, pois
juntos somos fortes, juntos estamos protegidos, juntos honramos a diversidade.
Pelo amor da deusa do céu estrelado e do deus para quem o amor nasceu
primeiro, pela luz da púrpura Chama Viada, nos unamos como irmãos que somos.
Isto é um chamado,
Félix A.

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