“Nós somos muitos,
guardiões do antigo mistério
A subida da
serpente ódica, o beijo de lúcifer
Que trás luz a mais
antiga verdade: o Desejo é livre
E a liberdade é a
raiz do verdadeiro desejo.
Não nos tentem
conter em uma única sexualidade
Sou o homem que
mordeu a maçã,
A mulher cujo corpo
não a espelhava,
Eu sou aquele que
fugiu da convenção, que está para além da aceitação
Eu sou a diferença
que se faz da própria diferença
Eu sou o fim do
modelo, a luz da sagrada chama;
Eu sou o sagrado
amor da união
Da Terra e das
Estrelas.”
(A Oração dos
ancestrais)
O culto aos ancestrais é talvez uma das
mais significativas expressões humanas de religiosidade; vale lembrar que
existem registros de que os homens pré-históricos, conhecidos como Neanderthais
já enterravam seus mortos, essa prática é um dos sinais que os pesquisadores
usam para determinar o grau de sofisticação destes povos, ligando claramente o
respeito aos mortos, seja de caráter pratico ou ritual, à existência de um grau
de cognição elevado.
O modo como este culto é feito varia
entre as diversas expressões do sagrado, no próprio Cristianismo, ele permanece
na adoração aos santos católicos, como mortos importantes para a história da
igreja que tem a função de interceder junto à divindade, nas praticas
afrobrasileiras, os ancestrais são um ponto central do culto, uma vez que
algumas das divindades encanaram diversas vezes na terra, tornando-se
ancestrais de valor na linhagem real de diversas tribos que originaram as
linhas de trabalho.
E, no fim das contas, o que é um
ancestral dentro da bruxaria? Normalmente quanto falamos em ancestrais, a
primeira face desse complexo aspecto de nossa espiritualidade, é a honra à
nossa linhagem de sangue, aqueles que trouxeram através do sexo a criação de
quem somos no plano físico, carregamos em nosso sangue nosso DNA e também
grande magia, algumas tradições inclusive dirão que dons são passados de
geração à geração através do sangue.
Não é deste tipo de ancestral que
estamos falando quando propomos a honra aos Ancestrais da Chama; honramos na
púrpura chama aqueles que morreram ao fazer valer a verdadeira expressão de
quem são, aqueles que morreram para que os direitos dos LGBT fossem criados,
aqueles que morreram porque eram homossexuais, os milhares que foram mortos em
câmara de gás com triângulos rosas em
suas blusas, os transexuais que morreram nas operações pioneiras, as
transexuais que morrem todos os dias nas ruas da cidade, aqueles que morreram
para nos proteger, independente de sua sexualidade ou gênero, aqueles que
quebraram os padrões da sociedade e pagaram por isso.
Cito como exemplo, meu próprio altar
destes ancestrais, em estão figuras como Lili Elbe, Allan Turring, os membros
da rebelião de Stonewall, os jovens em Orlando e aqueles que infelizmente perdi
em minha trajetória, mesmo aqueles que não conheci diretamente, mas cuja morte
me fez sair um tanto menos de casa —eu mesmo quase me junto a eles entre os
deuses algumas vezes.
Entendemos que estes são os nutridores,
estes são aqueles que morreram para que nós estivéssemos aqui hoje, para que
nós tivéssemos a liberdade de expressar nossa sexualidade, ou nossos
verdadeiros gêneros ou mesmo nossas essências selvagens e é nosso dever usarmos
de nossa existência aqui hoje para garantir às gerações futuras que eles possam
exercer ainda mais quem são através do Poder que é a Liberdade, a maior dádiva
dos deuses.
O dever que temos enquanto bruxos é
usarmos nossa magia para honrar estes ancestrais através da continuação de seu
trabalho, é isso que a Viada Chama Púrpura se propõe: a criação de uma egregora
de proteção e extensão da diversidade de maneira que cada homem, cada mulher,
cada um, possam experimentar em si, sem receio, esta expressão do sagrado que
não é de forma alguma um terceiro sagrado, um terceiro mistério, mas a
manifestação do grande mistério da vida que é o prazer que existe em cada um de
nós.
Não me alongarei aqui, pois pretendo
colocar em outros textos, formas honrar estes ancestrais; mas podemos começar
com incensos, creio que os incensos de Ametista, Canela e Almiscar são os mais
indicados para acessar esta egregora, em meu próprio altar mantenho uma caveira
mexicana nas quais acendo velas roxas, representando a grande chama púrpura que
protege a todos nós e uma figura representando o Grande Veado de Sete Chifres,
um de nossos totens protetores.
Honrem estes ancestrais da forma como
seus corações ordenarem e logo poderão ouvir seus sussurros ao longo da noite,
lhes oferecendo proteção, poder e conhecimento.
Isto é um chamado,
Félix Atalos,
2017

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